RITOS MASCULINOS PERDIDOS NOS DIAS ATUAIS

RITOS MASCULINOS PERDIDOS NOS DIAS ATUAIS

Ritos, ou rituais, são práticas preestabelecidas que compõe uma cerimônia, que pode ser religiosa ou não.

Costumes, por exemplo, são ritos de um modo mais informal, algo que fazemos e que muitas vezes sequer percebemos que aquilo é parte de uma tradição familiar, do país ou religiosa, que permeou o nosso cotidiano de forma a nem sequer mais lembrarmos a sua verdadeira raiz e por vezes até mesmo o significado daquilo.

Um exemplo clássico disso é o “minha nossa” que tanto dizemos em nosso dia a dia, mas que pouco para nós atualmente tem o real significado de uma breve prece à Minha Nossa Senhora Aparecida. Católicos, evangélicos, ateus, todos nós Brasileiros usamos o “minha nossa” – ou algo parecido com isso – em nossos coloquialismos, em maior ou menor frequência, sem que para isso estejamos realmente pensando na real prece que a interjeição significa. Esse seria um exemplo de um costume que um dia fora rito em nosso panteão religioso Brasileiro.

Quando um rito se torna costumeiro, um senso comum, o sentido original do mesmo acaba se perdendo com o passar dos tempos e após algumas breves eras – o que pode significar poucos anos muitas vezes – temos o rito completamente enraizado e transformado em alguma outra coisa. Se o mesmo se torna algo bom ou ruim, isso é uma discussão para outros blogs.

Por séculos à fio, o universo masculino foi rodeado de ritos, de costumes e atos que se passavam de pais para filhos, tais quais a clássica passagem da espada, brasão da família, ou anel; algo corriqueiramente representado por Hollywood em seus filmes de época nos momentos de ápice emocional, em que o pai já moribundo passa o objeto de insígnia para o seu filho herdeiro. Alguns ritos se originavam no próprio cerne familiar, outros eram transmitidos dentro da família, porém praticado por toda uma comunidade e a grande maioria dos ritos eram simplesmente atos, ou ações que eram exigidas de um homem e tidas como sinais de que o rapaz já tinha abandonado os anos de sua meninice e adentrado a fase adulta, onde responsabilidades e posturas eram esperadas da parte dele como um homem adulto na sociedade.

Com a modernidade muitos, senão todos os ritos se perderam. Como disse anteriormente ser o caso de alguns, se tornaram costumes corriqueiros, porém com o corre-corre do mundo atual, onde nos é exigido estar sempre “on the go”, sempre ocupados demais para viver, os costumes foram sendo substituídos por coisas mais simples, meras automatizações e até mesmo a total eliminação de algumas coisas foi promovida, pela sua falta de praticidade.

De vários pontos de vista pode-se dizer que isso é bom. Concordo até com isso. O que atrapalha e que pode ser simplificado ou até mesmo cortado, acho sim que deve ser feito. Eu poderia criar aqui uma lista infinita, escrever um livro de todas as coisas que antes eram demasiadamente dificultosas de serem feitas e que – graças a Deus – a modernidade nos proveu atalhos ou até mesmo os obliterou de sua existência.

Nosso mundo atual é mais prático, mais rápido, mais cheio de coisas para fazer ao mesmo tempo, mais cansativo, mais chato, mais mecânico…

A utilidade foi priorizada, em detrimento do que uma vez foi belo, ritualístico; algo que outrora nos gerava um sentimento de complitude, algo que nos dava um sentido e nos remetia à uma raíz em comum, enfim, algo que promovia a “cola” que unia a humanidade, de geração em geração.

Estávamos unidos aos nossos antepassados, e o que promovia essa união era justamente os ritos que mantínhamos e passávamos de geração em geração. A sensação de que a praticidade é algo superior ao “antigo” prevaleceu e prezando assim o prático, perdemos o belo. Dando ênfase no “otimizar”, perdemos o próprio sentido do que realmente somos.

Disse o Filósofo Roger Scruton, em que “toda a arte é absolutamente inútil. Priorize a utilidade e você a perderá, priorize a beleza e o que você construir será útil para sempre. Ocorre que nada é mais útil que o inútil”. Sendo assim, concluímos que há uma perene necessidade de deixarmos o “útil” para o segundo item de nossas listas de prioridades e colocarmos novamente em evidência aquilo que é belo, a tradição; aquilo que nos conecta – ao nosso ancestral e como humanidade – assim não correremos o risco de perdemos o sentido e a identidade do que somos.

Aquelas rotinas em que antes eram executadas através de costumes, ritos, mas que a modernidade não conseguiu eliminar, em suas tentativas de otimizar a rotina em si, a tornou em uma tarefa chata, incômoda e inconveniente, pois justamente o belo, o ritual, o sentido daquilo foi removido, ficando somente o “pratico”.

Você deve estar pensando que estou tentando achar pelos em casca de ovo. Mas basta listar uma única rotina que nós homens temos que encarar diariamente – ou com certa frequência – e que se perdura até os dias de hoje e você irá concordar comigo. Veja só:

 

 

O ATO DE SE BARBEAR

O Barbear era uma tarefa que exigia tempo, foco e dedicação.

Existe hoje no mundo uma rotina tão inconveniente, chata e muitas vezes cara como o barbear? Alguns se barbeiam durante o banho, outros após, outros usam seus barbeadores elétricos, na correria, indo para o trabalho, dentro do carro, usando o espelho retrovisor para checar se faltou algum ponto no rosto para remover os incômodos pelos.

A indústria tentou de várias formas tornar o ato de barbear, metaforicamente falando e até literalmente também – o mais indolor possível. Digamos até mesmo que hoje, com nossos aparelhinhos de barbear contendo 3, 4 e até mesmo 5 laminas, a indústria tenha realmente conseguido chegar à um fator mínimo de dor, ardência, coceira, irritação. Digamos que realmente tenha otimizado tanto em qualidade quanto em tempo. Porém, ela nunca conseguiu e duvido que um dia consiga, eliminar o fator chatice dessa nossa rotina masculina.

 

Agora, veja a coisa toda de um outro prisma…

 

Nesse afã de eliminar os excessos, otimizar o nosso tempo, para que pudéssemos ter mais tempo para fazer mais coisas e ficar mais estressados, estafados, depressivos e exaustos, tudo o que o mundo moderno conseguiu foi matar algo que antes mantínhamos tal qual um rito que era passado de pai para filho e que agora, em troca nos deu uma tarefa chata, tediosa e repetitiva, tal qual lavar a louça.

O Homem das Antigas tinha o ato de se barbear, ou para os mais clássicos: o ato de escanhoar, como uma cerimônia. Um momento de introspecção, concentração e de recolhimento ao seu próprio universo, seus pensamentos e devaneios pessoais.

O barbear exigia tempo, foco e preparo. Não era algo que podia se fazer assim, pelas coxas, ou os resultados poderiam ser desastrosos.

O homem das antigas, de camisa regata, toalha no ombro, se preparava psicologicamente e logisticamente para esse momento tão exclusivo do mundo masculino. O filho pequeno, sentado à ponta da mesa, ficava olhando o desenrolar do rito inteiro, imaginando que um dia seria ele a estar daquela outra ponta; com toalha à postos, água quente na chaleira e um pote de sabão bem sólido para fazer uma boa e espessa espuma.

A tarefa exigia tempo e foco, ou a cara do cidadão se tornaria um verdadeiro ralador de queijos. Porém, se feito de forma correta, com água bem quente aplicada em abundância para abrir os poros; uma espuma bem espessa era aplicada para promover um melhor deslizar da lamina e uma mão precisa, leve e sem repetições promovia um barbear prazeroso que mesmo a modernidade, com as suas 5 laminas em um único aparelho não conseguiu copiar até hoje.

O costume de ritualizar as tarefas cotidianas era comum; aquilo que era rotineiro, passava a ser ritualístico, justamente para adquirir sentido e profundidade. O útil se tornava belo, e o menino esperava ansiosamente pelo dia que seria a sua vez de realizar essas tarefas.

Eu poderia igualmente listar inúmeros ritos que nossos pais e avôs praticavam. Costumes que muitos de nós aqui podemos em nosso passado presenciar e até mesmo tivemos a oportunidade de termos nutrido expectativas à respeito desses costumes, que logo, um dia chegaria a nossa vez.

Esses costumes foram embora, substituídos pela modernidade; tidos como inconvenientes rotinas, pois a força e velocidade da evolução tecnológica não soube ter a paciência, a calma e a sutileza de compreender que algumas coisas deveriam permanecer ali, como sempre estiveram.

Para encerrar, vou deixar uma mínima lista de ritos que nossos pais e avôs mantinham e não viam como inconvenientes em suas vidas. Agora, espero que vocês me ajudem a ampliar a lista para que mais e mais tópicos possam ser criados sobre essa cultura há pouco esquecida.

Aqui vão:

  • Engraxar os sapatos;
  • Afiar o canivete. Na verdade ter um canivete;
  • Pote/estojo multiuso: onde o homem mantinha um verdadeiro tesouro de quinquilharias em que o filho pequeno se deliciava em fuçar;
  • Ir à barbearia: alguns mantém até hoje, porém está repaginado e gourmetizado demais;
  • Pós barba de pinho: esse, tal qual o old spice nos EUA, era um clássico do boticário masculino.
  • Fumar cachimbo.

Os ritos se diferenciam dos hobbies, muitas vezes um hobby pode ser ou vir a ser um rito na vida do homem. Daí nasce uma enorme lista para irmos detalhando melhor nos posts futuros.

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