O Eterno e o Passageiro

O Eterno e o Passageiro

Mediante os absurdos que nos aparecem nos dias atuais, constantemente nos perguntamos, muitas vezes com grande embaraço, o que exatamente aconteceu na história dos últimos séculos e o que nos trouxe até aqui?

Não seria possível em apenas um único artigo listar e ao mesmo tempo elucidar todos os motivos pelos quais o homem moderno se tornou raso, ignorante, sem modos e ao mesmo tempo donos da razão. Apontar o dedo para essa enorme ferida é algo que eu pretendo fazer, mas sei que vou precisar de muita tinta para conseguir abarcar o que mesmo assim, se tornará um pequeno “screenshot” de um grande problema.

Um dos motivos já elucidei no meu artigo anterior, sobre perda das tradições e dos ritos e de forma bem introdutória, na apresentação do meu blog.

Hoje gostaria de apontar um outro aspecto: o belo. Ou melhor, a perda do belo e seu significado em nosso cotidiano.

Se eu lhe perguntar o sentido da arte ou da música, existe uma grande chance de que você, que está lendo esse artigo agora me diga algo que gire em torno de uma única palavra: a beleza.

Ao atribuirmos um valor à arte, automaticamente percebemos que ela possui uma importância, e essa importância é de igual valor à verdade e à bondade, já definidas nos transcendentais da filosofia, pois não há como ser belo sem que no belo haja uma busca pela bondade; a bondade por sua vez, pode não ser inteiramente benigna se não estiver completamente aliada à verdade e à beleza e assim por diante, formando uma unidade.

O belo, algo que o homem das antigas sempre teve como pilar cultural, deixou de ser importante à partir do século XX.

A arte gradativamente mudou seu foco para passar a perturbar e quebrar aquilo que seus críticos (que nada criticam) chamam de tabus morais. Ou seja, a arte deixou de gerar beleza e passou a buscar a originalidade. Originalidade essa que é alcançada por quaisquer meios e a qualquer custo moral, uma busca desenfreada para se ganhar prêmios e notoriedade. A fama pela fama.

Assim como a arte, a arquitetura também fez seu pacto com a feiura, se tornando estéril. Porém, não foi somente o nosso entorno físico que se tornou feio: a nossa linguagem, a música e os maneirismos estão cada vez mais rudes, auto centrados e ofensivos, como se beleza e bom gosto não tivessem mais lugar em nossas vidas. Mas isso é tópico para outro artigo.

Uma palavra parece ser escrita em letras garrafais em todas estas coisas feias, que tudo permeiam hoje em dia, e a palavra é: EGOÍSMO.

Parafraseando Sir Roger Scruton: “Meus lucros”, “meus desejos”, “meus prazeres” e a arte não tem o que dizer em resposta, a não ser um “sim, faça isso!”.

Eu acho que estamos perdendo o senso de beleza, e existe o perigo de que com isso, percamos o sentido da vida, que é buscar as coisas do alto.

Com a relativização, com o pós-modernismo e todas as pautas que nasceram à partir disso, perdemos o senso do belo, que como um pilar, sustentava a nossa busca pelas coisas atemporais.

O homem moderno, tal qual um rato de laboratório em um estudo sobre a adicção pelo prazer, segue dois nortes apenas: o instantâneo e o prazer; em alguns casos tudo vira uma coisa só: o prazer instantâneo. Regido pelo prazer instantâneo, o homem moderno tem guiado as suas tomadas decisões, suas vidas e, no extremo dos casos aqueles que estão em posições elevadas na política à exemplo, conseguem até mesmo reger a vida alheia.

O homem das antigas não tinha pressa, tudo era bem pensado e bem feito

Durante a história inteira da humanidade, o homem buscava as coisas do alto, ele sabia que precisava deixar sua marca para os seus descendentes, não como necessidade de inflar seu ego, mas como diretriz primária à perpetuação da raça humana. Sendo assim, suas ações refletiam aspectos marcantes e preponderantes à necessidade de gerar algo duradouro, por isso, o homem das antigas não tinha pressa, tudo era bem pensado e bem feito. Suas tomadas de decisões eram feitas somente após muita reflexão; o rito tinha uma presença constante em sua vida, pois lhe infundia o senso de repetição e de fazer algo bem feito. Como evidência, ele – o homem das antigas – nos deixou a sua marca, através da arte, da arquitetura, da música, da literatura e nos ritos. Enfim, tudo era uma busca pelo bem feito; para a mera constatação, basta olhar para os detalhes arquitetônicos de um edifício ou igreja barroca e comparar com o desastre atual.

O homem moderno tornou-se escravo do prazer rápido, evidente em tudo, desde livros rasos, mal escritos e sem qualquer profundidade nas personagens e suas histórias, até nos muitos movimentos populares, tais como o “lifehack“, onde para tudo na vida parece haver um “hack”, um atalhozinho, um acochambrezinho.

Com isso, o homem moderno perdeu a capacidade de foco, de buscar a profundidade das coisas e do exercício virtuoso da paciência. O homem moderno quer tudo e quer agora. O homem moderno acha que merece tudo, por ser moderno.

Sob o pretexto da “otimização”, o homem moderno já não mais tem uma visão de longo prazo. Nossos ancestrais, o homem das antigas, escreveu livros repletos de sentido e de profundidade; pintou o belo, o significativo e nos convidou à introspecção. O homem das antigas construiu Catedrais Góticas, nos mostrando que nossos atos, aquilo que aqui fazemos deve deixar uma marca para nossos sucessores, e sabia que ao iniciar uma construção não estava fazendo aquilo para si mesmo como fim último, mas para as próximas gerações, e que a humanidade como um todo, através da efígie do gótico, estaria buscando as coisas do alto.

O homem moderno já não escreve mais para as futuras gerações, já não produz mais nada para as gerações futuras. Ele produz em um ritmo frenético, para que os resultados sejam maximizados, o lucro otimizado, o ego inflado e vende esse resultado inflado como a conotação do sentido da vida.

O homem medieval não se preocupava com o fato de ser medieval, porém, o homem moderno está constantemente preocupado em ser moderno

G. K. Chesterton

Chesterton dizia que o homem medieval não se preocupava com o fato de ser medieval, porém, o homem moderno está constantemente preocupado em ser moderno. Em algum momento da nossa história contemporânea, nasceu a ideia de que o homem moderno é superior ao homem das eras anteriores. Que pelo simples fato de ser moderno já denota melhoria. Essa falácia nasceu à partir do momento que o relativismo moral se apossou de nossas vidas.

Moderno vem de moda, moda é algo que muda com o tempo. Seguir a moda é tão louco quanto tentar chegar ao fim do arco-íris, pois quando pensamos ter chegado lá, ele já está mais distante. É como segurar agua com uma peneira. O homem contemporâneo é moderno porque busca constantemente estar na moda, porém, jamais a alcança.

Com isso não estou dizendo: “vista aquele paletó do seu avô, cheio de naftalina, ande de carroça e jogue fora sua televisão”. Mas sim, busque as coisas do alto, o eterno, aquilo que nos traz significado para a vida; busque o belo, o verdadeiro e o bem. Um simples exercício mental que nos traz à sobriedade é refletirmos sobre o que estaremos pensando no momento de nossa morte, o nosso exercício do memento mori.

Se constantemente tivermos em mente que iremos morrer, saberemos que as coisas que realmente valem a pena na vida são aquelas que nos trazem significado. O lifehack, o bíceps hipertrofiado, o carrão do ano e as fotos do Instagram se esvaem como uma tênue fumaça mediante o vislumbre da eternidade. Assim, o anseio pelo belo, pelo virtuoso, por aquilo que é bom, que é repleto de significado torna-se o combustível nos propele à executar as coisas grandes, que deixarão nossas marcas para as gerações futuras. A fama, o ego se esvai, o significado de algo muito profundo fica.

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